MINHA COMPANHIA DE
NATAL.
A
cidade estava decorada com pisca-piscas, e todas as casas tinham um presépio
dentro. As famílias se reuniam ao redor da árvore para distribuírem seus
presentes antes da ceia. O Natal havia chegado.
Eu
era a única pessoa caminhando solitária, observando a alegria nas casas
enquanto ia em direção à minha, no final da rua; sem luzes, sem pinheirinho,
nem presépio.
Meus
filhos já eram crescidos e moravam muito longe. Estavam sempre muito ocupados
para me visitarem nessa ou em qualquer outra época do ano. Meu marido faleceu
quando tínhamos apenas 3 anos de casados e me deixou com 3 filhos para criar.
Seria a ironia do destino o número 3? Porque há 3 meses eu fiz 83 anos.
Quando
eles eram pequenos, eu montava a árvore também, como meus vizinhos faziam
agora. E costumava colocar Jesus na manjedoura à meia-noite, junto com meus
filhos, que ficavam ansiosos por esse momento. Já não lembro quando foi a
última vez que guardei o presépio no quartinho das bugigangas e apaguei a luz
para nunca mais encontrá-lo lá. Só sei que foi um Natal em que eu enfeitei toda
a casa e não tive ninguém pra compartilhar aquele momento comigo.
Dali em diante, eles começariam a me ligar, já em novembro, para eu não
os esperar para a ceia, pois tinham que trabalhar, acompanhar a família a outro
lado, mil e uma desculpas melhores que passar um tempo com uma velha que
caminhava encurvada com a ajuda de uma bengala.
Quem me visse na rua agora pensaria o quê de mim? Muitas coisas, mas
jamais a verdadeira.
Eu era advogada e é verdade que eu não tinha muito tempo para eles. Por
isso, eles não têm tempo para mim hoje? Talvez.
Eu precisava trabalhar para dar comida, casa e boa educação aos meus
três filhos: Laura, Carlos e Luana, nessa sequência. Eles sempre me pediam
muitas coisas: brinquedos, comidas diferentes etc. Carlos queria comer pizza
uma vez por semana, Laura sempre estava interessada em um objeto que suas
amigas tinham e Luana pedia brinquedos novos cada vez que via na propaganda da
T.V. Eu achava que estava fazendo certo em trabalhar e dar tudo o que eles me
pedissem, já que não tinham mais o pai. Eu via isso como uma maneira de
substituir essa falta.
Hoje, penso diferente, mas o tempo já passou para mim.
Vou caminhando e me aproximo da casa mais escura da rua, tiro as chaves
e abro o portão. Quando entro, eu levo um susto, porque começam a soltar fogos
de artifício. É tão lindo que decido sair para ver. Alguns vizinhos também saem
na calçada e conversam animadamente.
Lembro dos meus pais, de quando eu era pequena, com minhas irmãs
correndo pela rua numa noite como aquela, mas sem os fogos, que não eram comuns
naquele tempo. Depois, fiz a mesma coisa com meus filhos, e agora, sozinha,
estou ali novamente olhando para o céu reluzente.
Quando viro, novamente, para entrar em casa, uma sombra escura passa por
mim, e eu me assusto ao perceber um cachorro preto e grande. Tento chamar ele
para fora, mas não me obedece. Entro e tento espantá-lo com gestos e algumas
interjeições. Nada! Faço movimentos de ameaça com minha bengala, e nada! Até
que percebo seu olhar de medo, como se ele não estivesse realmente na minha
garagem, mas em outro lugar dentro dele mesmo. Fico com pena e entro procurando
por algo para lhe dar de comer. Encontro um pedaço de frango que eu tinha
preparado no dia anterior. Eu já não como mais carne; frango é melhor para os
dentes que restaram.
Levo até perto dele e nada! Tento fazê-lo cheirar e nada!
Solto os ombros, desolada, e penso que o Natal é uma vez por ano. Então,
decido ir até o quartinho de bugigangas. Reviro o lugar até encontrar o que
quero e levo tudo que está dentro de um saco grande para a garagem e, na
companhia do cachorro assustado com os fogos de artifício, começo a montar meu
presépio, há tantos anos abandonado naquele quartinho que eu quase não entro.
Demoro para montar tudo; meus movimentos já não são como antes e, de vez
em quando, preciso me sentar para descansar. Ali, tenho uma cadeira de vime
mais nova que eu, porém mais destruída, e a arrasto para perto.
Quando coloco Jesus na manjedoura, o cachorro faz um grunhido, e vejo
ele comendo o pedaço de frango que eu tinha lhe dado antes. Levanto com a
dificuldade que já estou acostumada, vou até a cozinha e esquento um pedaço
para mim também.
Volto para a garagem com mais um pedaço para ele e outro para mim. Com o
presépio montado de forma simples e Jesus na manjedoura, somos companhia um
para o outro nesta noite de Natal.
M.C.Jachnke.
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Aviso: Este texto pode ser utilizado em aulas ou compartilhado com amigos, desde que seja citada a fonte e o nome da autora.
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