segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Uma companhia inesperada na noite de Natal.

 


MINHA COMPANHIA DE NATAL.

A cidade estava decorada com pisca-piscas, e todas as casas tinham um presépio dentro. As famílias se reuniam ao redor da árvore para distribuírem seus presentes antes da ceia. O Natal havia chegado.

Eu era a única pessoa caminhando solitária, observando a alegria nas casas enquanto ia em direção à minha, no final da rua; sem luzes, sem pinheirinho, nem presépio.

Meus filhos já eram crescidos e moravam muito longe. Estavam sempre muito ocupados para me visitarem nessa ou em qualquer outra época do ano. Meu marido faleceu quando tínhamos apenas 3 anos de casados e me deixou com 3 filhos para criar. Seria a ironia do destino o número 3? Porque há 3 meses eu fiz 83 anos.

Quando eles eram pequenos, eu montava a árvore também, como meus vizinhos faziam agora. E costumava colocar Jesus na manjedoura à meia-noite, junto com meus filhos, que ficavam ansiosos por esse momento. Já não lembro quando foi a última vez que guardei o presépio no quartinho das bugigangas e apaguei a luz para nunca mais encontrá-lo lá. Só sei que foi um Natal em que eu enfeitei toda a casa e não tive ninguém pra compartilhar aquele momento comigo.

Dali em diante, eles começariam a me ligar, já em novembro, para eu não os esperar para a ceia, pois tinham que trabalhar, acompanhar a família a outro lado, mil e uma desculpas melhores que passar um tempo com uma velha que caminhava encurvada com a ajuda de uma bengala.

Quem me visse na rua agora pensaria o quê de mim? Muitas coisas, mas jamais a verdadeira.

Eu era advogada e é verdade que eu não tinha muito tempo para eles. Por isso, eles não têm tempo para mim hoje? Talvez.

Eu precisava trabalhar para dar comida, casa e boa educação aos meus três filhos: Laura, Carlos e Luana, nessa sequência. Eles sempre me pediam muitas coisas: brinquedos, comidas diferentes etc. Carlos queria comer pizza uma vez por semana, Laura sempre estava interessada em um objeto que suas amigas tinham e Luana pedia brinquedos novos cada vez que via na propaganda da T.V. Eu achava que estava fazendo certo em trabalhar e dar tudo o que eles me pedissem, já que não tinham mais o pai. Eu via isso como uma maneira de substituir essa falta.

Hoje, penso diferente, mas o tempo já passou para mim.

Vou caminhando e me aproximo da casa mais escura da rua, tiro as chaves e abro o portão. Quando entro, eu levo um susto, porque começam a soltar fogos de artifício. É tão lindo que decido sair para ver. Alguns vizinhos também saem na calçada e conversam animadamente.

Lembro dos meus pais, de quando eu era pequena, com minhas irmãs correndo pela rua numa noite como aquela, mas sem os fogos, que não eram comuns naquele tempo. Depois, fiz a mesma coisa com meus filhos, e agora, sozinha, estou ali novamente olhando para o céu reluzente.

Quando viro, novamente, para entrar em casa, uma sombra escura passa por mim, e eu me assusto ao perceber um cachorro preto e grande. Tento chamar ele para fora, mas não me obedece. Entro e tento espantá-lo com gestos e algumas interjeições. Nada! Faço movimentos de ameaça com minha bengala, e nada! Até que percebo seu olhar de medo, como se ele não estivesse realmente na minha garagem, mas em outro lugar dentro dele mesmo. Fico com pena e entro procurando por algo para lhe dar de comer. Encontro um pedaço de frango que eu tinha preparado no dia anterior. Eu já não como mais carne; frango é melhor para os dentes que restaram.

Levo até perto dele e nada! Tento fazê-lo cheirar e nada!

Solto os ombros, desolada, e penso que o Natal é uma vez por ano. Então, decido ir até o quartinho de bugigangas. Reviro o lugar até encontrar o que quero e levo tudo que está dentro de um saco grande para a garagem e, na companhia do cachorro assustado com os fogos de artifício, começo a montar meu presépio, há tantos anos abandonado naquele quartinho que eu quase não entro.

Demoro para montar tudo; meus movimentos já não são como antes e, de vez em quando, preciso me sentar para descansar. Ali, tenho uma cadeira de vime mais nova que eu, porém mais destruída, e a arrasto para perto.

Quando coloco Jesus na manjedoura, o cachorro faz um grunhido, e vejo ele comendo o pedaço de frango que eu tinha lhe dado antes. Levanto com a dificuldade que já estou acostumada, vou até a cozinha e esquento um pedaço para mim também.

Volto para a garagem com mais um pedaço para ele e outro para mim. Com o presépio montado de forma simples e Jesus na manjedoura, somos companhia um para o outro nesta noite de Natal.

M.C.Jachnke.

@Todos os direitos reservados.

Aviso: Este texto pode ser utilizado em aulas ou compartilhado com amigos, desde que seja citada a fonte e o nome da autora.


 
Este conto nasceu de uma situação real que aconteceu comigo em uma noite de Natal, quando um cachorro preto e grande entrou na minha garagem. Aquela cena inesperada me fez pensar em como, muitas vezes, a companhia chega de onde menos esperamos. Não, eu não estava sozinha, mas a inspiração veio daquela noite. E me deu vontade de compartilhar com vocês este texto. O que acharam?


sábado, 13 de dezembro de 2025

Atividade de Natal em português com produção oral.


Oi, pessoal.

Talvez, muitos como eu, terão aula nos dias 23 e 24 de dezembro e querem alguma ideia para uma aula temática nestes dias. Pensando nisso compartilho com vocês o que eu usarei este ano. 

Ela funciona com turmas iniciantes e permite revisar conteúdos já estudados sem pressão.

A proposta: 

O aluno vai falar sobre o Natal a partir da sua própria experiência, comparando hábitos, gostos e costumes, usando frases curtas e conhecidas.

Atividade: Complete e fale

Peça para os alunos completarem as frases e, depois, apresentarem oralmente para a turma ou para um colega.

  1. No meu país, o Natal é ...

  2. No Natal, a minha família costuma ...

  3. Eu passo o Natal com ...

  4. No Natal, eu gosto de comer ...

  5. Uma comida típica de Natal no meu país é ...

  6. Eu gosto / não gosto do Natal porque ...

  7. No Natal, eu geralmente ...

  8. Uma tradição de Natal que eu gosto é ...

Para fechar a aula: a Árvore de Desejos.

Para encerrar a aula de Natal de forma simbólica e participativa, proponha a construção coletiva de uma Árvore de Natal dos Desejos.

Na aula presencial, a árvore pode ser desenhada em uma cartolina ou no quadro. Já na aula virtual, ela pode ser feita diretamente na tela, em um slide, quadro digital ou ferramenta colaborativa.

Cada aluno deve escrever um desejo para o próximo ano, usando uma palavra ou uma frase curta em português, e colocá-lo na árvore.

Exemplos de desejos: saúde, paz, esperança...

Se o nível permitir, o aluno pode escrever uma frase simples, como: Eu desejo saúde para minha família.

Dica pedagógica:

Antes da atividade, vale revisar rapidamente o vocabulário no quadro ou na tela. Durante a construção da árvore, incentive a leitura em voz alta dos desejos, criando um momento de escuta, partilha e prática oral.

Mais do que uma atividade de Natal, a Árvore de Desejos se transforma em um momento de conexão com a língua, com a turma e com o que cada aluno espera para o futuro.



quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Músicas natalinas em português.

 Oi, pessoal!

As músicas natalinas são um recurso leve e envolvente para aprender português. Elas combinam vocabulário simples, estruturas repetitivas e muito contexto cultural. Além disso, são familiares para alunos de diferentes países, o que facilita a compreensão e desperta interesse.







Atividade prática: escolha uma música e peça para:

  1. Ouvir e completar lacunas em uma folha com trechos da letra.

  2. Identificar verbos e classificá-los no tempo verbal (presente, futuro etc.).

  3. Criar uma mensagem de Natal inspirada na letra, usando expressões aprendidas. 


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Curiosidades do Natal pelo mundo: português com cultura.

Oi, pessoal.

O Natal é uma das festas mais celebradas no mundo e, no Brasil, é marcado por ceias em família, troca de presentes e muita música. Papai Noel, presépios e árvores iluminadas fazem parte da tradição, mas o clima tropical dá um toque especial à data, muitas vezes comemorada com calor, roupas leves e até churrasco.

Mas cada país tem costumes e tradições diferentes. Conhecer essas curiosidades é também uma forma divertida de aprender vocabulário e praticar português em um contexto cultural.


Este material pode ser aproveitado por professores, como recurso em sala de aula, ou por estudantes, como prática autônoma para ampliar o contato com a língua.





Continue explorando conteúdos como este para praticar português de maneira leve e significativa. Aprender uma língua também é mergulhar nas histórias, costumes e curiosidades que ela carrega.





segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Português com Machado de Assis: O Espelho (PLE).

 


Oi, pessoal!

Ler literatura brasileira é uma maneira poderosa de aprender português. Ao entrar em contato com textos clássicos, a pessoa amplia o vocabulário, percebe diferentes estilos de escrita e descobre aspectos culturais do Brasil.

Hoje vamos conhecer um dos contos mais famosos de Machado de Assis, O Espelho, publicado pela primeira vez na Gazeta de Notícias em 8 de setembro de 1882 e depois reunido no livro Papéis Avulsos. Neste texto, Machado apresenta seu “esboço de uma nova teoria da alma humana”, mostrando como as pessoas constroem sua identidade a partir do olhar dos outros.

Reflexão em português:

– Você concorda com a ideia de que temos “duas almas”?
– No seu dia a dia, você sente que muda sua maneira de ser dependendo de onde está ou com quem está?


O Conto: link 

O Espelho 

 Esboço de uma nova teoria da alma humana Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo. Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lhe um dos presentes, e desafiou o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu: - Pensando bem, talvez o senhor tenha razão. Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos. - Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que 3 ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas... - Duas? - Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma... - Não? - Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis... - Perdão; essa senhora quem é? - Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos... Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que 4 conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração: - Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom... - Espelho grande? - Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais. 5 O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu? - Não. - O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não? - Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes. - Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah ! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados. - Matá-lo? - Antes assim fosse. - Coisa pior? 6 - Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!- For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se? - Sim, parece que tinha um pouco de medo. - Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos 7 amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único -porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel. - Mas não comia? - Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac... - Na verdade, era de enlouquecer. - Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o 8 espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia... - Diga. - Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar. - Mas, diga, diga. - Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir... Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.




Assinado:
Marli, Profe de Português para Estrangeiros


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

O uso de “você” no Brasil: aprenda com o linguista Ataliba T. de Castilho

 Oi, pessoal.

O português brasileiro tem várias formas para se dirigir a outra pessoa: “tu”, “você”, “o senhor/a senhora”. Mas por que o “você” se tornou tão comum em quase todo o país?

Para refletirmos sobre isso, vamos assistir a um trecho da entrevista do linguista Ataliba T. de Castilho no Programa do Jô. Ele comenta sobre a língua falada no Brasil e a relação entre a norma culta e o uso real das pessoas. 


Reflexão.

Responda às perguntas:

  1. Por que o “você” é tão usado no Brasil urbano?

  2. Em quais regiões ainda se usa bastante o “tu”?

  3. Em que contextos usamos “o senhor / a senhora”?

Nota final: No Brasil atual, o “você” se consolidou como a forma mais comum de tratamento no dia a dia, especialmente nos grandes centros urbanos e nos meios de comunicação. O “tu” ainda resiste em algumas regiões, mas muitas vezes aparece com conjugação híbrida (“tu vai”), revelando a vitalidade e a diversidade do português brasileiro. Já o uso de “o senhor / a senhora” continua sendo importante em situações de respeito e formalidade.


Assinado:
Marli, Profe de Português para Estrangeiros



segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Memes nas aulas de português.

 Oi, pessoal!

Os memes são uma forma moderna de comunicação que mistura humor, imagens e linguagem cotidiana. No ensino e no aprendizado do português como língua estrangeira, os memes funcionam como recurso divertido para praticar vocabulário, expressões populares e até aspectos culturais

Muitos memes trazem frases curtas e fáceis de lembrar. Isso ajuda a fixar palavras de uso frequente na fala dos brasileiros.


Partiu

Significado: usado para indicar que alguém está pronto para sair ou começar algo; equivalente a “vamos lá”.

Exemplo: Partiu praia!

Uso em memes: geralmente acompanhado de fotos engraçadas ou exageradas de pessoas saindo de casa, viajando ou se preparando para uma aventura.


Deu ruim 

Significado: algo saiu errado, não funcionou como esperado.

Exemplo: Tentei fazer bolo sem receita, mas deu ruim.

Uso em memes: aparece em situações de fracasso, surpresa ou quando algo termina de forma desastrosa.

Sextou

Significado: celebração da chegada da sexta-feira, dia de descanso, festa ou lazer.

Exemplo: Sextou! Bora comemorar o fim de semana.

Uso em memes: muito popular em redes sociais, aparece junto a imagens de festa, bebidas, churrascos ou alegria contagiante.


Mó paz.

Significado: transmite tranquilidade, relaxamento, clima bom.  

Exemplo: Depois da prova, fiquei em casa vendo série, mó paz. 

Uso em memes: aparece junto de imagens ou vídeos que mostram situações de calmaria, lazer ou quando alguém ignora problemas e segue de boa.




 E você, já usou ou ouviu alguma dessas expressões?