Oi, pessoal!
Ler literatura brasileira é uma maneira poderosa de aprender português. Ao entrar em contato com textos clássicos, a pessoa amplia o vocabulário, percebe diferentes estilos de escrita e descobre aspectos culturais do Brasil.
Hoje vamos conhecer um dos contos mais famosos de Machado de Assis, O Espelho, publicado pela primeira vez na Gazeta de Notícias em 8 de setembro de 1882 e depois reunido no livro Papéis Avulsos. Neste texto, Machado apresenta seu “esboço de uma nova teoria da alma humana”, mostrando como as pessoas constroem sua identidade a partir do olhar dos outros.
Reflexão em português:
– Você concorda com a ideia de que temos “duas almas”?
– No seu dia a dia, você sente que muda sua maneira de ser dependendo de onde está ou com quem está?
O Conto: link
O Espelho
Esboço de uma nova teoria da alma humana
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de
alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor
alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era
pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar
que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e
sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas
metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do
universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam;
mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo
de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem
instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a
forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam
nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta
mesma resposta naquela noite, contestou-lhe um dos presentes, e desafiou
o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele)
refletiu um instante, e respondeu: - Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou
da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa,
em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu
radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o
acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um
pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores
pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos. - Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar
lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem
ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que
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ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em
primeiro lugar, não há uma só alma, há duas... - Duas? - Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas
consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para
entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de
ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou
dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos
homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um
simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim
também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma
cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é
transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades,
perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a
perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por
exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los
equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um
punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos
ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a
alma exterior não é sempre a mesma... - Não? - Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas
almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e
o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza
mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros
anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma
provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma
senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a
alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a
rua do Ouvidor, Petrópolis... - Perdão; essa senhora quem é? - Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se
Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado
dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de
que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...
Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido,
esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da
civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor
que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que
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conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele
começou a narração: - Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado
alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em
nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o
seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note
se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na
Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos
candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do
desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me
de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés,
durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram
satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado
por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão
Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário,
desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui,
acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia
Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que
não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava
me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um
tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse
de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que
me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para
lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como
dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor
alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não
me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas
a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo
caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não
imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao
ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e
magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e
simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da
mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D.
João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho
estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em
parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura,
uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas
bom... - Espelho grande? - Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho
estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a
demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por
algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais.
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O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em
mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e
completou. Imaginam, creio eu? - Não. - O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas
equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me
uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior,
que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de
natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me
falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do
cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da
patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar,
não? - Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes. - Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos
são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça
namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o
movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que
a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e
intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal
obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de
três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora,
um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas,
casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à
morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo
uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse
conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário;
deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os
poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande
opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um
cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que
se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes
continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a
consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas
suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e
a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles
redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a
minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô
alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de
louvores e profecias, que me deixou extático. Ah ! pérfidos! mal podia eu
suspeitar a intenção secreta dos malvados. - Matá-lo? - Antes assim fosse. - Coisa pior?
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- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos
por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a
noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro
paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego
humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que
fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a
vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados
pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do
que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era
um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras
horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei
também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe
dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo
alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma
estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum;
finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no
outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã
passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de
pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse
consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia,
nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou
proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol
abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de
século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria
me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando,
muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e
topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso
lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era
justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!-
For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo,
um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais
silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra,
era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém,
nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte
nenhuma... Riem-se? - Sim, parece que tinha um pouco de medo. - Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico
daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo
vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um
defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era
outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da
morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o
sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma
interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos
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amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um
amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão
ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro,
esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único -porque a
alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que
teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a
ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois
tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada
mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa,
nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac.
Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava.
Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político,
um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e
tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo.
Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur
Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel. - Mas não comia? - Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao
fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral
em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de
Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes.
As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era
só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio,
um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da
pêndula. Tic-tac, tic-tac... - Na verdade, era de enlouquecer. - Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só,
não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não
tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e
dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é
verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito
dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de
achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o
resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga,
esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não
permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos
contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação.
Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava;
receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E
levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão,
olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado,
mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse,
sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para
dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o
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espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição
de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração
inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes
de adivinhar qual foi a minha idéia... - Diga. - Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado,
contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de
linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes
de adivinhar. - Mas, diga, diga. - Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo;
e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo
nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos,
nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a
alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida
com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que,
pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois
começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece
individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é
Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do
sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro,
recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um
autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma
certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo
olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com
este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

Assinado:
Marli, Profe de Português para Estrangeiros